A ficção como antropologia pública do íntimo: da tese ao romance em um diário de fabulação etnográfica
DOI:
https://doi.org/10.17058/signo.v51i102.21471Palabras clave:
Escrita criativa, Etnografia, Ficção, AntropologiaResumen
Este ensaio analisa o processo de transformação de uma tese antropológica sobre um centro de recuperação pentecostal em um romance ainda em elaboração. Com base na releitura da tese, em diários de campo, rascunhos ficcionais e versões abandonadas, examino dois momentos complementares do processo criativo: a tentativa inicial de transpor para a ficção as cenas, personagens e desfechos retidos pela pesquisa; e a posterior criação de Ismael Ventura, narrador que nasce do que a seleção etnográfica deixou de fora. A análise concentra-se em quatro operações de escrita: a passagem da descrição à cena, a criação de personagens compósitos, a mudança de focalização e a reorganização do tempo do campo em enredo. Argumento que as decisões éticas e estéticas não constituem etapas separadas, pois a proteção dos interlocutores altera a forma literária e a invenção ficcional redefine a responsabilidade perante o referente. Proponho, por fim, a noção de antropologia pública do íntimo para nomear uma escrita que não populariza simplesmente resultados acadêmicos, mas produz, por meios literários, outras formas de inteligibilidade, presença e interlocução pública. A comparação entre o que a tese narrou e o que ela silenciou mostra que toda etnografia produz simultaneamente uma narrativa e um resto, e que a ficção pode habitar ambos.
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Referencias
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