Frames discursivos do feminicídio: violência simbólica e misoginia a partir do superframe Violência_justificada
DOI:
https://doi.org/10.17058/signo.v51i100.20973Palavras-chave:
Feminicídio, Semântica de Frames, Violência Simbólica, Discurso de ódio, Eliza SamudioResumo
Este artigo analisa os mecanismos discursivos que sustentam a naturalização da violência de gênero em ambientes digitais, tendo como objeto de estudo a repercussão do feminicídio de Eliza Samudio. O objetivo central é investigar os frames semânticos que emergem em comentários misóginos, os quais, em vez de repudiarem o delito, atuam na deslegitimação da vítima e na justificação simbólica do crime. Fundamentado na interface entre a Semântica de Frames, de Charles Fillmore, e as teorias sobre dominação e patriarcado de Pierre Bourdieu, Heleieth Saffioti e bell hooks, o estudo examina como a linguagem opera como locus de perpetuação da violência. Metodologicamente, adotou-se uma abordagem que articula a interpretação qualitativa assistida por ferramentas da Linguística de Corpus (via AntConc), aplicadas a um corpus piloto de 75 comentários extraídos de publicações no Facebook a partir de 2022. Os resultados demonstram que a misoginia se organiza hierarquicamente sob o superframe Violência_Justificada, desdobrando-se em categorias operacionais de culpabilização, estigmatização e desmoralização da vítima, além da minimização do crime e apoio ao agressor.
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