Chamada dossiê v. 16 n. 1 (2027): FRONTEIRAS DA ACESSIBILIDADE LINGUÍSTICA: PRÁTICAS DE MEDIAÇÃO EM LIBRAS, LEITURA FÁCIL E AMBIENTES DIGITAIS
A acessibilidade linguística ocupa lugar central nos debates contemporâneos sobre linguagem, comunicação, educação, cidadania e participação social. Em diferentes esferas institucionais, acadêmicas, jurídicas, educacionais e digitais, o acesso à informação depende não apenas da disponibilidade de conteúdos, mas também das formas linguísticas, discursivas, visuais e tecnológicas por meio das quais esses conteúdos são produzidos, organizados e circulam socialmente.
Nesse contexto, as práticas de mediação linguística tornam-se fundamentais para compreender como sujeitos e grupos acessam, interpretam e participam de diferentes espaços sociais. A acessibilidade linguística não pode ser reduzida à adaptação pontual de materiais ou à mera presença de recursos técnicos. Ela envolve decisões sobre língua, texto, tradução, interpretação, terminologia, clareza, multimodalidade, design informacional e tecnologias digitais. Trata-se, portanto, de um campo situado nas fronteiras entre línguas, modalidades, suportes, públicos e níveis de especialização.
Inserido no escopo da Revista Rizoma, este dossiê temático propõe reunir contribuições que investiguem práticas de acessibilidade linguística e de mediação discursiva em três eixos articulados: a mediação bilíngue Libras–Português; a simplificação textual por meio da Leitura Fácil e da Linguagem Simples; e o desenvolvimento de ambientes digitais orientados por critérios de acessibilidade. Ao aproximar esses campos, o dossiê busca favorecer abordagens interdisciplinares que dialoguem com os estudos da linguagem, da comunicação, da educação, da tradução, da interpretação, da acessibilidade e das tecnologias digitais.
No caso das pessoas surdas, a acessibilidade linguística pressupõe o reconhecimento do bilinguismo bimodal, constituído pela relação entre a Libras, língua de modalidade visuoespacial, e o português escrito, língua de modalidade oral-auditiva representada graficamente. Essa configuração produz dinâmicas específicas de construção de sentido, sobretudo em contextos escolares, acadêmicos, institucionais e digitais. No campo da tradução e da interpretação de Libras, a mediação demanda mais do que a mera correspondência entre unidades linguísticas: exige escolhas terminológicas, reorganizações sintáticas, ajustes discursivos, domínio de campos especializados e atenção ao público destinatário.
A problemática da acessibilidade linguística, entretanto, não se limita aos contextos bilíngues. A Linguagem Simples, a Leitura Fácil e a simplificação textual constituem estratégias de reorganização discursiva que incidem sobre escolhas lexicais, estruturas sintáticas, progressão temática e disposição visual da informação. Em textos administrativos, jurídicos, científicos, educacionais e institucionais, tais práticas não implicam empobrecimento conceitual, mas sim reconfiguração da forma do enunciado para ampliar a inteligibilidade e favorecer a participação social.
Nos ambientes digitais, as fronteiras entre língua de sinais, texto escrito, imagem, vídeo, recursos multimodais e design informacional tornam-se ainda mais evidentes. Plataformas virtuais, ambientes de ensino a distância, repositórios acadêmicos e portais institucionais demandam soluções que articulem usabilidade, organização linguística do conteúdo, acessibilidade técnica e clareza discursiva. A presença de vídeos em Libras, a estruturação clara das informações, a compatibilidade com diferentes dispositivos e a adequação da linguagem compõem um mesmo campo de decisões que impactam as possibilidades de compreensão, circulação e interação.
Este dossiê acolhe pesquisas empíricas, investigações teóricas aplicadas, estudos de caso, relatos de experiência institucional, análises discursivas, propostas metodológicas e investigações aplicadas que examinem práticas de mediação linguística em diferentes contextos sociais. Interessa-nos especialmente analisar como tais práticas se configuram nas fronteiras entre especialização e divulgação, linguagem técnica e público amplo, produção institucional e participação cidadã, bem como entre presencialidade, ambientes digitais e multimodalidade.
Este dossiê temático recebe contribuições sobre os seguintes tópicos, entre outros:
- Mediação bilíngue Libras–Português em contextos educacionais, acadêmicos, institucionais e digitais;
- Tradução e interpretação de Libras em materiais de alta densidade conceitual;
- Terminologia, escolhas tradutórias e reorganização discursiva em Libras e português escrito;
- Bilinguismo bimodal, acessibilidade linguística e circulação do conhecimento;
- Leitura Fácil, Linguagem Simples e simplificação textual em contextos bilíngues e monolíngues;
- Acessibilidade linguística em textos administrativos, jurídicos, científicos, educacionais e institucionais;
- Ambientes digitais acessíveis, usabilidade, design informacional e multimodalidade;
- Produção de materiais didáticos e institucionais acessíveis em Libras, português escrito e outros recursos semióticos;
- Adaptação discursiva, clareza textual e participação cidadã;
- Políticas de acessibilidade linguística em instituições de ensino, órgãos públicos e espaços comunitários;
- Formação de tradutores, intérpretes, mediadores linguísticos e profissionais envolvidos na produção de materiais acessíveis;
- Tecnologias digitais, plataformas educacionais e recursos multimodais voltados à acessibilidade.
Ao situar a acessibilidade linguística nas interfaces entre línguas, modalidades, níveis de especialização, tecnologias e práticas sociais, o dossiê busca contribuir para o debate sobre os modos de produção, circulação e mediação do conhecimento em diferentes esferas sociais. A proposta reafirma a centralidade das políticas de mediação discursiva nos estudos contemporâneos da linguagem e convida pesquisadoras, pesquisadores, profissionais e instituições a refletirem sobre formas de produzir textos, traduções, interpretações e ambientes digitais mais acessíveis.
Prazo para Submissão: os textos deverão ser submetidos até 15 de novembro de 2026, via sistema eletrônico da Revista Rizoma, observando as condições de submissão e as diretrizes para autores disponíveis no site da revista. O dossiê será publicado em março de 2027.
Dúvidas poderão ser encaminhadas para o e-mail da Revista Rizoma - jorgesc@unisc.br.
Atenciosamente,
Profa. Dra. Vanessa de Oliveira Dagostim Pires – Docente EBTT do Instituto Federal Sul-rio-grandense, Campus Sapucaia do Sul. Atuou como coordenadora do NAPNE (Núcleo de Apoio a Pessoas com Necessidades Específicas) do campus entre 2016 e 2019 e entre 2021 e 2022. Desde 2024, exerce a vice-coordenação do mesmo núcleo. Coordena os projetos Literatura Acessível e GAHEMI (Grupo de Altas Habilidades no Ensino Médio Integrado). Participa do Grupo de Estudos em Acessibilidade Textual Terminológica da UFRGS.
Profa. Dra. Camila Guedes Guerra – docente do Departamento de Estudos Especializados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com atuação na área de Língua Brasileira de Sinais. Coordena o projeto de extensão "Libras em Ambiente Virtual e Informática na Educação Especial".
Prof. Dr. Vinicius Martins Flores – docente do curso de Bacharelado em Letras – tradutor e intérprete de Libras (Libras-Português e Português-Libras) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desde 2017, com atuação em disciplinas de prática de tradução e interpretação de Libras e na supervisão de estágios. É docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS. Coordena o GETTLibras (Grupo de Estudos de Tradução e Terminologia em Libras) e o Polo UFRGS da Licenciatura em Pedagogia Bilíngue, em parceria com o INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos). É membro do LABICO (Laboratório de Bilinguismo e Cognição, UFRGS) e do GPEPI (Grupo de Pesquisa Educação e Processos Inclusivos, UERGS).