Frames semânticos e(m) discurso: uma análise semântico-cognitiva sobre direitos reprodutivos no campo jornalístico brasileiro
DOI:
https://doi.org/10.17058/signo.v51i100.21085Palavras-chave:
Linguística Cognitiva, Semântica de Frames, Direitos reprodutivosResumo
A presente pesquisa se insere no projeto “Semântica Cognitiva e(m) discurso: entrelaçamentos de frames semânticos no discurso político e midiático” (Santos, 2023), que visa a compreender como os direitos humanos e reprodutivos das mulheres são conceptualizados em diferentes contextos discursivos. O referencial teórico é a Semântica de Frames (Fillmore, 1982, 1985), em perspectiva sociocognitivo-discursiva (Miranda; Loures, 2016; Santos; Chishman, 2021), partindo-se da noção de frame como ferramenta analítica que permite sistematizar diferentes pontos de vista no contexto dos discursos sobre abortamento, conforme já apontado por pesquisas anteriores (Coulson, 2008; Santos, 2016, 2020). Atualmente, o foco está no contexto de direito ao aborto no Brasil. Neste artigo, abordamos os resultados de um estudo realizado a partir de um corpus proveniente de sites de meios de comunicação do Brasil, tendo a Linguística de Corpus (Berber Sardinha, 2000, 2004; Chishman et al., 2018) como aporte metodológico para compilação e processamento dos dados. Como resultados principais, percebe-se que, discursivamente, estão sendo colocadas em disputa diferentes perspectivas acerca dos direitos reprodutivos; não obstante, os direitos das mulheres são agenciados com significativa proeminência. Nesse sentido, é ainda marcante a presença de um conflito que se reflete no agenciamento de frames semânticos, colocando em oposição elementos que pleiteiam direitos e outros que, no contexto da discussão sobre aborto no Brasil, colocam em dúvida – ou ainda não respeitam – os direitos de meninas, mulheres e pessoas que gestam.
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